24 de novembro de 2014. A última postagem por aqui foi em 2011. Se me perguntarem o motivo para esse hiato de mais de três anos, eu poderia dar como resposta a infame “falta de tempo” (bullshit!) até a não menos famosa (e infame) “falta de inspiração” (bullshit²).

Três anos depois e a resposta para essa pergunta não importa mais. O que importa mesmo é que voltei. Graças ao incentivo de alguns amigos e, principalmente, pela necessidade de voltar (recomeçar) a fazer coisas que me façam bem e que dão sentido a muita coisa na minha vida. Escrever é uma delas. Falar sobre cinema é outra. Sobre arte. Sobre o que eu quiser. Sem compromisso. E com quantos caracteres me der na telha. (rss)

Pois bem… Volto aqui para falar sobre a leitura de uma obra escrita por um amigo muito querido. O nome: “Nem a morte nos separa”. O autor: Ricardo Gonzalez, colega jornalista e amigo que conheci no canal Sportv em 2012.

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Um relato autobiográfico emocionante sobre a trajetória de uma família durante a doença terminal de um filho. Dez meses de batalha contra o câncer, a agonia e a esperança de um pai até a inevitável morte precoce de seu querido filho de 21 anos, no dia 19 de novembro de 2010.

Uma história que, provavelmente, se repete todos os dias pelo mundo afora, sem que se tenha dimensão de uma realidade que, pra muitos, só pode ser entendida assim, através de linhas viscerais como as do livro de Ricardo.

“Não consigo imaginar o que você está sentindo.” Talvez essa seja a frase mais comum a ser ouvida numa situação de perda. No imaginário das pessoas que ainda não passaram por isso, só a assustadora possibilidade de tentar se colocar no lugar daquele pai, poderia ser o suficiente para entender o que é impossível de ser entendido.

A cada capítulo de “Nem morte nos separa”, eu me sentia mais parte da jornada de Ricardo, Rafa, Mônica, vô Constantino e demais familiares. Não só porque o autor nos convida, de peito aberto, a entrar na intimidade daquela família, conhecer suas características, familiarizando-nos com seus dilemas, agonia e sofrimento.

Pois eu digo: eu consigo imaginar o que você está sentindo. Se eu tivesse encontrado o amigo Ricardo naquele fatídico novembro de 2010, teria ido além. Teria olhado no fundo dos seus olhos, e antes de lhe dar um forte e emocionado abraço, desabafaria: “Não só imagino… Eu vivi o que você está sentindo”.

Vivi sim, simultaneamente aquele 2010 que poderia nunca ter existido. Aquele triste e macabro “18 de novembro” e os dias, meses que o antecederam. Aquele câncer, traiçoeiro e mortal que, vejam só, nos mesmos 10 meses arrancaria brutalmente do meu convívio a mulher que eu amava mais que qualquer outra neste mundo: minha mãe.

Eu era jovem como o Rafa. Três anos mais velha. Ela era mais velha que o Ricardo, 52 anos de pura força. Nunca tinha visto a dona Mariline doente até aquele janeiro de 2010, quando ela apresentou os primeiros sintomas do que também seria um diagnóstico equivocado de pneumonia.

Ricardo e eu ainda não nos conhecíamos, mas vivenciávamos juntos os piores momentos de nossas vidas. Nossas histórias se encontravam nessa encruzilhada das coincidências do destino. Coincidências que, aliás, só aumentavam a cada capítulo lido. A cada ida ao hospital, a cada notícia desencorajadora dos médicos, a cada aparente melhora dos nossos amados.

Rafa e minha mãe tinham em comum a vontade de viver, a gratidão por aqueles que deles cuidavam, e a serenidade em relação a irreversível condição em que estavam. Tinham em comum a paixão pelos seus times de futebol, mesmo nos momentos mais difíceis. Ele flamenguista, ela colorada. Mariline viu em vida seu time ser campeão do mundo pela primeira vez, campeão sul-americano e duas vezes da Libertadores, a última delas em agosto de 2010. Não viu a derrota histórica para o Mazembe, em dezembro daquele ano. Algo que, de fato, ela não desejaria estar viva para ver.

Rafa e minha mãe tinham em comum o gosto por música, o bom humor diante das adversidades e até mesmo o compreensível mau-humor de quem queria estar em qualquer lugar, menos naqueles cinzentos hospitais, onde ambos sabiam que seria o último lugar em suas memórias vivas.

Queria ter levado minha mãe no show do U2, uma de nossas bandas preferidas, no início de 2011, como havia prometido assim que soubemos da turnê. Não tive tempo. Assim como Rafa e Ricardo também não tiveram tempo de ir ao show do Paul McCartney. Meu pai e eu fomos. Incentivados por ela, no dia 8 de novembro, 10 dias antes de sua partida. Choramos juntos quando Paul cantou “My Love”. Sentimos pela primeira vez o que o próprio Paul já havia sentido. Era a nossa despedida.

Cada um de minha família tinha muito a ver com a família de Ricardo. Cada um diferente nas suas particularidades, porém fundamentais nesse processo de transição. Transição de vida e morte para aqueles que partiam. Transição de vida e de sobrevida para os que ficavam.

Meu pai era como a espiritual, prática e incansável Mônica. Meu irmão mais velho era como o primo Paulo: sensível, dependente da presença física da minha mãe, incrédulo diante do inevitável. Meu irmão do meio era como vô Constantino, resignado em sua dor, como se tivesse passado por aquele momento mais vezes em outras vidas.

Ricardo e eu tínhamos em comum o otimismo e a esperança infindáveis. Ficávamos nos hospitais naquele revezamento entre trabalho e noites mal dormidas em sofás/poltronas duros, acordados a cada hora em que enfermeiros entravam no quarto para atormentar com agulhas e remédios o sono dos nossos queridos. Vivíamos em comum aquele medo constante de checar a respiração deles a cada despertar durante a madrugada. Rogamos pelo milagre da cura, oferecemos nossas vidas em troca e ficamos desacreditados na força divina que não ouviu nossos apelos. Vivemos o medo do desconhecido e a incerteza do reencontro no fim de tudo.

Pude me ver em cada linha escrita por Ricardo, em cada sentimento traduzido em palavra. Somos todos iguais na dor, irmãos na perda, órfãos da presença, órfãos de um futuro imaginado que não mais existirá. A perda de um filho é contra a ordem natural da vida. A perda de uma mãe é a ausência de norte e proteção.

Com o talento natural de escritor e jornalista, Ricardo transforma o legado de Rafael em uma obra literária de valor inestimável, um instrumento da sua própria superação. “Nem a morte nos separa” é um livro generoso. Generoso porque informa. Generoso porque alerta. Generoso porque nos torna mais humildes diante das dificuldades. Porque eterniza a memória, e é, por fim, prova de que o amor incondicional é maior que a própria vida, um amor que nunca morre… Só se multiplica.

Obrigada Ricardo, por dividir com o mundo essa linda história que é sua, mas que também é minha e de muitos outros como nós. 

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